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	<title>Catorze &#187; conto</title>
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		<title>Catorze &#187; conto</title>
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		<title>Maria, aflita</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jul 2009 22:13:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fabiofariasf</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fábio Farias]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<description><![CDATA[Por Fábio Farias
- Enjoei.
Distraída, Maria olha para o marido. Ele tinha um olhar sério.
- É, enjoei!
Maria, então, coloca o pano de prato sobre a mesa e diz:
- Tá sentindo alguma coisa meu bem? Bem que o doutor Juvenal disse para você não comer frituras&#8230;
Determinada, ela foi direto na estante dos remédios e passou a cavucar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=catorzeblog.wordpress.com&blog=4518509&post=800&subd=catorzeblog&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img class="aligncenter size-full wp-image-804" title="3631782324_b1f5906c76_b" src="http://catorzeblog.files.wordpress.com/2009/07/3631782324_b1f5906c76_b.jpg?w=604&#038;h=453" alt="3631782324_b1f5906c76_b" width="604" height="453" />Por Fábio Farias</p>
<p style="text-align:justify;">- Enjoei.</p>
<p style="text-align:justify;">Distraída, Maria olha para o marido. Ele tinha um olhar sério.</p>
<p style="text-align:justify;">- É, enjoei!</p>
<p style="text-align:justify;">Maria, então, coloca o pano de prato sobre a mesa e diz:</p>
<p style="text-align:justify;">- Tá sentindo alguma coisa meu bem? Bem que o doutor Juvenal disse para você não comer frituras&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Determinada, ela foi direto na estante dos remédios e passou a cavucar algum paracetamol da vida. Fabrício mantinha seu olhar sério. Não havia nele o mínimo sinal de alguma doença. Só havia aquele olhar frio, determinado.</p>
<p style="text-align:justify;">- Não Maria. Pare. Não estou enjoado. Eu enjoei.<span id="more-800"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Maria, aflita, e com uma cartela de paracetamol nas mãos pergunta:</p>
<p style="text-align:justify;">- Enjoou de quê, homem?</p>
<p style="text-align:justify;">- De tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">O paracetamol cai no chão. Maria, ainda sem entender, aproxima-se com o seu cheiro de rosas molhadas, senta-se ao lado de Fabrício na poltrona vinho e com as suas mãos de dona-de-casa tremendo toca as mãos grossas e geladas do marido. Os seus belos olhos azuis lacrimejantes imploravam explicações. Fabrício então explica.</p>
<p style="text-align:justify;">- Enjoei da nossa vida, dessa nossa forma de viver hipócrita. Chego em casa todas as noites, você me prepara essa mesma janta e vamos dormir depois da novela. Ao amanhecer, sequer tocamos os nossos corpos. Acordamos e mal nos olhamos! Não há mais paixão, não há mais alegria em dormir, muito menos em acordar juntos. Em silêncio nos arrumamos e eu vou para o trabalho e você vai deixar os meninos no colégio. Enjoei, Maria, enjoei dessa mentira que vivemos diariamente e que mantemos só por causa dos nossos filhos. Não agüento mais fingir que somos felizes, que não temos problemas, que nos amamos. Sei que você não me ama e eu não te amo mais. Não te satisfaço na cama e sei que não me deseja tanto como fala nos meus dias de ausência. Sei que Danilo vem quase todas as tardes aqui para suprir a minha falta. No nosso pouco sexo não temos emoção, sequer satisfação recíproca. Somos duas pedras de gelo em movimento constante. Não temos paixão Maria, não faz sentido viver sem paixão. As noites que chego mais tarde, você bem sabe que estou com outras, porque assim como eu não te satisfaço, você não me satisfaz também. Procuro nos outros corpos aquilo que encontrei em você quando éramos jovens. Aqueles suspiros e faltas de ar constantes, aquela paixão que nos fazia desejar a presença do outro em cada instante, em cada segundo de nossas vidas. Isso passou Maria, fomos consumidos pelo tempo. Esfriamos com os anos, somos como dois pedaços de carne mortos e que se deixam levar pelo destino.  Não Maria, esse não era o amor do qual eu lia, do qual nos prometíamos quando éramos mais jovens que vivíamos e mostrávamos, orgulhosos, para os outros. Nos transformamos naquilo que mais abominávamos nos outros casais e nos conformamos com essa situação por causa do peso da idade e da falta de coragem em mudar as coisas. Viramos aquele casal de aparência que tanto odiávamos, você não percebe? Vivemos em uma carapuça de falsa felicidade e me cansei disso Maria. Me cansei Maria. A verdade é que não te amo como antes. A verdade é que vivo a nostalgia de um passado que jamais voltará e me sinto aprisionado a algo que não mais acredito. A nossa história foi linda e, se foi, é porque um dia existiu. Ela não existe mais. Nem para mim, nem para você. Não Maria, não quero mais viver isso, não quero ser mais fazer parte de um casal mentiroso em meio a multidão, não quero sustentar essa falsidade superficial. Eu tenho o direito de procurar novas paixões, assim como você. Vou embora para sempre Maria e, por favor, não venha atrás de mim.</p>
<p style="text-align:justify;">Silêncio. Ao dizer isso, Fabrício se levantou e foi para o quarto, arrumar as suas coisas. Maria estava paralisada, absorvida em palavras que mal conseguia digerir. Os olhos, lentamente, enchiam-se de água. O coração batia mais forte. As pernas eram trêmulas, fraquejavam. Não havia mais chão. Tomou então um papel em cima da mesa, escreveu. Sequer notou as lágrimas borrando a sua letra doce escrita no azul da caneta. Com os olhos lacrimejantes, mas sem perder a postura austera, entregou o papel ao marido.</p>
<p style="text-align:justify;">“Se quiser, esqueço de tudo, dou a volta ao mundo com você, mudo, te mostro a minha verdade e você me mostra a sua. Mas, por favor,  você deveria saber que te amo mais que tudo e que o amor está além da paixão. Te amo e não quero que vá. Saiba que sem você eu não vivo. E se tudo é uma mentira para você, não é para mim.Te amo Fabrício e não adianta pedir, não vou desistir de você.”</p>
<p style="text-align:justify;">Fabrício dobrou o bilhete, guardou no bolso do paletó antigo.  Seus olhos mostram uma frieza e uma determinação colérica.</p>
<p style="text-align:justify;">- Depois resolvemos as pendências dos nossos filhos.</p>
<p style="text-align:justify;">Acendeu um cigarro e saiu para nunca mais voltar.</p>
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		<title>A Intuição</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Jul 2009 23:04:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fabiofariasf</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fábio Farias]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[boneca inflável]]></category>
		<category><![CDATA[intuição]]></category>
		<category><![CDATA[rosa]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Fábio Farias
- Duas rosas brancas.
A mulher, ainda estranhando um pouco o pedido daquele rapaz que aparentava ter algo em torno de 20 anos, esboçou algo parecido com um sorriso e pediu que esperasse um momento.
Passaram um, dois, três momentos, e ele ainda aguardava o seu pedido. Ansioso para receber as rosas e depois pensar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=catorzeblog.wordpress.com&blog=4518509&post=791&subd=catorzeblog&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img class="aligncenter size-full wp-image-792" title="850416050_a4f3d32fde_o" src="http://catorzeblog.files.wordpress.com/2009/07/850416050_a4f3d32fde_o.jpg?w=604&#038;h=393" alt="850416050_a4f3d32fde_o" width="604" height="393" />Por Fábio Farias</p>
<p>- Duas rosas brancas.</p>
<p>A mulher, ainda estranhando um pouco o pedido daquele rapaz que aparentava ter algo em torno de 20 anos, esboçou algo parecido com um sorriso e pediu que esperasse um momento.</p>
<p>Passaram um, dois, três momentos, e ele ainda aguardava o seu pedido. Ansioso para receber as rosas e depois pensar o que fazer com elas. Seu joelho tremia levemente, num sinal de desconforto e pressa. O pedido das rosas brancas veio como um impulso. Ele simplesmente saiu do seu pequeno apartamento com isso na cabeça. Duas rosas brancas. Duas rosas brancas. Duas rosas brancas, para quê? Não sabia. Tinha certeza que teriam que ser duas, rosas e, ainda por cima, brancas.</p>
<p>- Aqui estão, custam 8 reais.<span id="more-791"></span></p>
<p>Oito reais!? Por duas rosinhas brancas? Que absurdo, pensou, mas o impulso era mais forte de que o sentimento suvino que lhe abateu ao saber do preço das rosas. Tirou da carteira uma nota de 10 reais, esboçou algo que queria parecer com um sorriso simpático, esperou o troco. A moça, com um sorriso, ainda teve a coragem de dizer:</p>
<p>- Desculpe a demora, tive alguns problemas para encontrar as rosas.</p>
<p>Olhou de forma simpática para a moça. Recebeu o troco. Saiu da loja, pensando qual seria o futuro daquelas rosas brancas. Rosas brancas. Para quê fui comprar rosas brancas hoje? Sentiu então uma vontade forte de tomar vinho. Precisava tomar uma garrafa de vinho tinto. De preferência barato. A boca salivava. Vinho tinto. Esqueceu as rosas por um momento, seguiu a um supermercado próximo, comprou uma garrafa de vinho tinto. Custou uns seis reais. Quatorze reais o custo dos seus impulsos de hoje até agora.</p>
<p>Seguiu para a sua casa ouvindo Bob Dylan e pensando porquê isso. Vinho tinto, rosas brancas. Pensou. Sexo, seu impulso queria sexo. É! Não há nada mais estimulante sexualmente para ele do que vinho. E as rosas? Ah, as rosas são para conseguir a mulher. Sonhou. Busto farto, pernas de tirar o fôlego, batom vermelho e cara de safada. Cara de safada não. Tem que ter cara de inocente. É mais gostoso. Chegou no seu apartamento. Abriu a porta. Colocou o vinho na geladeira. As rosas em cima da mesa. E esperou a sua intuição indicar a próxima coisa para conseguir efetuar a sua relação sexual. Pensou. Sem camisinha. Muito tempo que não faço sexo. Cinco meses, talvez. E sem camisinha não rola. Não quero ser pai assim, tão cedo. É, é isso, a Intuição quer que eu compre camisinha. Vou comprar camisinha.</p>
<p>Trancou a porta do apartamento. Desceu. Foi a farmácia mais próxima. Comprou três pacotes de camisinha. Nisso daí foi cerca de oito reais. Meu Deus, estou gastando muito dinheiro. Saiu da farmácia quando, de repente, pá, trombou com alguém. Não teve nem tempo de ver quem era. Trombou, abaixou-se, pegou as suas camisinhas. Envergonhado, olhou para ela. Busto farto. Tá, as pernas não eram lá essas coisas, mas dava pro gasto. Não tinha batom. Será? Pensou ele. Arriscou um oi. Mas não conseguiu nada além de um pedido de desculpas dela meio assim, como quem não quer dar. Dar nem as desculpas, nem nada mais. É, as pernas não eram lá essas coisas. Seguiu para o apartamento.</p>
<p>Elevador. De repente, pernas. Não, não eram pernas. Eram esculturas. Era ela? Tá, o busto não era grande, e o nariz era meio esquisito. E o queixo? O que era aquilo embaixo do queixo? Uma verruga? Ah vai, coloca a bandeira do Brasil na cabeça e come por amor a pátria, pensou. Arriscou um, qual andar? Ela, o seu gostosão! Assustou-se. Não era bem uma voz fina. Aliás, não era uma voz fina. Era grossa. Temeu. O elevador chegou no andar. Saiu. Ela, ou ele, olhava-o esperando para ser convidado, ou convidada, para entrar. Ele nem olhou. Entrou depressa no apartamento. Trancou a porta. Respirou aliviado.</p>
<p>Bem, e agora? Já tinha gastado vinte e dois reais. E não sabia o que fazer com aquelas coisas. Rosas brancas. Vinho. Camisinha. Só faltava o mais importante. Pensou. A agenda. Ah, a agenda telefônica. Ela irá me salvar. Fechou os olhos, abriu a agenda. De olhos ainda fechados, colocou o dedo em algum lugar da página. Abriu os olhos. Nada, o dedo apontava para um espaço vazio. Essa intuição tá brincando comigo. Repetiu três vezes, até chegar em Janaína. É, é gordinha, tem cara de safada. Ah vai, tem peito. E as pernas não são esculturais, mas dão pro gasto. Sempre deu bola pra mim, aquela dandinha. É hoje. Ligou. Ela atendeu. Tá namorando. Com uma mulher! Uma mulher! E eu aqui na secura.</p>
<p>Triste e desconsolado com a Intuição, abriu o vinho. Tomou um gole. Colocou Chuck Berry no som. Uma rosa branca na boca. Lembrou-se dela. A boneca. Essa sim era perfeita. Busto farto, pernas grossas, batom vermelho. Ah, e aquele rostinho inocente. Um tesão. Encheu a boneca. E ao som da guitarra de Berry, no torpor do vinho, com uma rosa branca na boca e outra entre os grandes seios plastificados dela e a camisinha para não sujar o apartamento, teve a melhor trepada da sua vida. Até então.</p>
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		<title>Magnólia tem dessas coisas</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Jun 2009 05:41:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>catorzianos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ramon Ribeiro]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Magnólia]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Ramon Ribeiro
Nem esperou terminar a aula. Quis chegar antes dela. Ao avistá-la, cumprimentou com um beijo longo de meio ano de namoro. E disse: “Veja o que fiz!”. Magnólia recebe o bilhete e não resiste ao simples poema: “Que lindo!”. Mas logo muda o tom. E sem ao menos preparar o parceiro para o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=catorzeblog.wordpress.com&blog=4518509&post=675&subd=catorzeblog&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Por Ramon Ribeiro<img class="aligncenter size-full wp-image-683" title="Magnólia tem dessas coisas" src="http://catorzeblog.files.wordpress.com/2009/06/magnolia-tem-dessas-coisas4.jpg?w=500&#038;h=335" alt="Magnólia tem dessas coisas" width="500" height="335" /></p>
<p style="text-align:justify;">Nem esperou terminar a aula. Quis chegar antes dela. Ao avistá-la, cumprimentou com um beijo longo de meio ano de namoro. E disse: “Veja o que fiz!”. Magnólia recebe o bilhete e não resiste ao simples poema: “Que lindo!”. Mas logo muda o tom. E sem ao menos preparar o parceiro para o que estava convicta a fazer, termina o relacionamento numa quarta-feira à noite.<span id="more-675"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Antônio, na volta para casa, desolado que estava, senta-se num bar disposto a beber. E bebe. Chora e se aguenta. Vai pra casa. Na cama, logo depois de chegar, ouve a campainha e vai atender. Ao abrir a porta, o grito: “Vingança!”. E Carlos Augusto Correia, conhecido como Corujão, dispara seu calibre 38. Cinco tiros perfuram o corpo, sendo que o último atinge o braço direito, deixando cair o poema manchado.</p>
<p style="text-align:justify;">A mãe, que a pouco não tirava os olhos da novela, assistiu a tudo. E agora entra em desespero na entrada do Walfredo Gurgel, onde Antônio conseguiu chegar ainda com vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Dias depois, num jornal popular, um estagiário fez a matéria. Informou ele que o óbito aconteceu na madrugada após o crime, e que o Corujão, menor de idade, estava detido.</p>
<p style="text-align:justify;">Corujão revelou estar arrependido. “Ela me pediu para matar ele em troca de uma coisa e eu aceitei. Ela arranjou um 38 e disse que ia ligar pra mim no dia marcado. A culpa é dela”, depois de uns minutos mencionou o que era o prometido: “ela ia dá pra mim”. Vejam bem a razão: sexo.</p>
<p style="text-align:justify;">“Ela” era Francisca Magnólia Ferreira, 15, ex-namorada da vítima e que também estava detida. O revólver foi ela quem arranjou de outrem. E o motivo era simples.</p>
<p style="text-align:justify;">Entendam. Antônio, um mês antes, teve um desentendimento com um rapaz no bar Maria Maria, e no fim da noite, resolveu a situação na bala. Matou o infeliz porque este o havia chamado de bicha. Realmente Antônio fazia as sobrancelhas, afinal, as suas eram juntas, e ele as dividia ao meio com bastante desvelo. Mas Antônio não era afeminado. Era na verdade mais um jovem moderninho sem acanhamento em assumir a vaidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Continuando. Acontece que, sem saber, Antônio matou o amante de sua então namorada Magnólia. O rapaz era dez anos mais velho que a garota, e a conheceu por acaso, passando na rua, quando ela, saidinha que era, comentava em grupo com as amigas a beleza física dele. No mesmo dia trocaram os primeiros beijos. Os dois seguiram, sempre às escondidas, o romance, que, da parte dela, cresceu bastante até terminar, quando o amante morreu por obra de seu namorado.</p>
<p style="text-align:justify;">A conclusão a própria Magnólia explica: “Sabia que Corujão queria ficar comigo. Era fácil pedir pra ele matar o Toinho. Eu disse que ia dar pra ele, mas eu não ia. Já tinha até arranjado a arma. Aí pedi pra ele falar que era vingança antes de matar o Toinho de verdade. Quando mexem com alguém que eu gosto eu sou vingativa mesmo. Não vou mentir”.</p>
<p style="text-align:justify;">Pra terminar. Não faltando o falecimento do pobre Antônio, no inquérito ainda constou que na mochila do jovem foram encontradas, além de uma pistola, 13 pedras de crack e 110 reais em espécie.</p>
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		<title>Daniela</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Nov 2008 15:29:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fabiofariasf</dc:creator>
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Por Vitor Azevedo
Imagem por Muskawo (Deviantart)
Ela atribuía a si o frescor que havia trazido aos meus dias. Chegava a se gabar por ter resgatado em mim a possibilidade de uma vida novamente interessante. Eu assistia ao dias com um sorriso quase perene, como que agradecido por tudo que a presença dela significava naquele tempo. Daniela, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=catorzeblog.wordpress.com&blog=4518509&post=454&subd=catorzeblog&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><img class="aligncenter" src="http://fc57.deviantart.com/fs5/i/2004/341/7/8/woman_by_muskawo.jpg" alt="" width="316" height="352" /></p>
<p style="text-align:center;">
<p style="text-align:justify;">Por Vitor Azevedo<br />
Imagem por <a href="http://muskawo.deviantart.com/art/woman-12958944" target="_blank">Muskawo (Deviantart)</a></p>
<p style="text-align:justify;">Ela atribuía a si o frescor que havia trazido aos meus dias. Chegava a se gabar por ter resgatado em mim a possibilidade de uma vida novamente interessante. Eu assistia ao dias com um sorriso quase perene, como que agradecido por tudo que a presença dela significava naquele tempo. Daniela, com maestria, usava o auto-reconhecimento como artifício para atrair cada vez mais admiração. Um sujeito tão tímido quanto eu só podia me sentir protegido pela segurança que ela transmitia. E tinhas outros atributos, muitos outros que não vêm ao caso falar agora.</p>
<p style="text-align:justify;">A vida ao lado daquela pequena mulher (tinha 19 anos quando nos conhecemos) foi de uma vertiginosa intensidade. Hoje percebo que foi uma experiência breve, porém, por mais relutante que eu seja, ainda trago marcas dos nossos dias. Algumas atitudes, alguns lugares, minha auto-piedade, memórias.<span id="more-454"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Daniela me deixou no meio de uma visita ao Jardim Botânico. Debaixo das palmeiras reais, soltou minha mão, fez um silêncio grave, em seguida disse que não me amava mais. Beijou-me a barba e foi embora. Ainda tive tempo de ver uma lágrima em seus olhos castanhos. Minha reação? O que se esperar de um velho de 51 anos subitamente abandonado por uma garota de 19, quase 20?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu fiquei imóvel. Permaneci assim durante uns 2 minutos, vendo-a caminhar apressada até sair do meu campo de visão. Não chamei por ela, não abri a boca, não chorei. Permaneci ali, inerte, uma vida inteira. E nunca mais vi Daniela. Nem notícia, telefonema, carta, não, nunca.</p>
<p style="text-align:justify;">Tornei-me um velho petrificado. Sou uma pessoa vazia, desde então. Não me comovo mais com nada, exceto quando visito o Jardim Botânico (e faz alguns anos que eu não ando por aquelas bandas). Até das lembranças me blindei. Meus dias passam mais rápido quando levo o Elvis, meu pincher, pra passear no calçadão. Uma partida de xadrez na praça, uma visita à banca, olhar o mar de manhã cedo. Gosto também de andar de metrô, nem precisa de destino certo. Mesmo que literal, me inspira movimento. E isso me parece imprescindível para não morrer.</p>
<p style="text-align:justify;">Tenho um coração saudável para as pessoas de minha idade. Nunca fui chegado em vícios. Só bebi na época em que estava com ela, lá se vão o quê, 10 anos, eu acho. Não me lembro bem. Relembrar certas coisas não é mais tão fácil quanto antes. Mas eu falava do coração. Ontem pensei que ia ter um infarto ao chegar em casa. Ontem à tardinha. Tombado na poltrona, senti meu peito se dilacerar, uma dor atroz. Paradoxalmente, há tempos não me sentia tão vivo, tão sensível.</p>
<p style="text-align:justify;">Horas antes, no metrô, três estações antes da que habitualmente desço, uma criança correra em minha direção. O garoto sorriu pra mim e pôs a mão no meu braço. Eu não me considero um velho ranzinza, mas não me enterneci com a cena, não fui cortês. Ele então correu até uma mulher que estava sentada ao lado da porta do vagão. Ela o pegou no colo e observou para quem o seu filho apontava. Reconheci na mesma hora aquele olhar acastanhado. Daniela sorriu, como uma forma de assentir a simpatia do pequeno com aquele senhor comum sentado no metrô. Instintivamente me encolhi no assento reservado para idosos, como se estivesse tomado de extrema vergonha de mim. Talvez não fosse isso, mas assim reagi. Enquanto espiava de soslaio aquela outra Daniela, ela, mãe dedicada, brincava com seu filho alguns bancos à frente.</p>
<p style="text-align:justify;">Acabei descendo uma estação antes da minha, meio atordoado. Teria ela me reconhecido? &#8211; Não, não é possível &#8211; remoia dúvidas. Estaria ela casada? Será que era feliz? Talvez ainda carregasse a segurança inabalável das mulheres bonitas. Nunca o caminho para casa havia sido tão longo.</p>
<p style="text-align:justify;">Ontem eu podia ter morrido. Eu queria ter morrido, na verdade. Mas estou vivo, fisiologicamente falando. Aquele encontro no metrô levou de mim toda a fortaleza, a blindagem do íntimo. Hoje acordei e não quis sair da cama. Elvis latiu a manhã toda. Até trouxe a coleira pra cima do meu travesseiro. Ainda fragilizado pela dor da última tarde, levantei e olhei pela janela do apartamento. O bonito dia que se descortinava lá fora compreendia uma espécie de justiça poética para os últimos acontecimentos. Uma recompensa. E alguma coisa me dizia: vá gastar o tempo que ainda te resta.</p>
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