Marcelino e seus Contos Negreiros

 

Por Fábio Farias

Marcelino Freire escreve com coração. Arranca as artérias, as veias, a aorta e faz do seu próprio sangue, sua tinta. Os ventrículos se esfregam na folha em branco, o tum-tum faz o ritmo do seu texto parecer ter o som da fluidez dos hematócitos que circulam diariamente no nosso corpo. Marcelino Freire escreve com o coração. As manchas de sangue sujam os livros do recifense com imagens assustadoramente reais.

Contos Negreiros deveria vir com uma recomendação médica expressa “atenção, risco de envenenamento por hematócitos marcelinianos”. Publicado pela Editora Record, vencedor do Prêmio Jabuti 2006, os contos são sujos, viscerais, poéticos com uma crueza e sinceridade assustadoras. É hipnose pura o principal sintoma do marcelianismo. O leitor não foge daqueles cânticos assustadores e viciantes e daquela forma de escrever que faz qualquer professor de português ter um ataque cardíaco.

As vírgulas de Marcelino são imaginárias. Não há uma imposição, há diálogo textual. Marcelino imagina dramas de negros veados, de favelados que sonham em ser Xuxa, de negros jogados, esquecidos, chutados por brancos, racistas, idiotas. Num país onde o preconceito racial é praticado nas entrelinhas, às escondidas, onde a resistência não é possível e as pessoas têm vergonha da cor de suas peles. Tudo isso é exposto, cantado, criticado de uma forma genial pelo escritor/poeta recifense. Quando os negros descem do morro para fazer documentário de branco de Copacabana, e são chutados, porque negro no Brasil é assaltante, é ladrão, é vagabundo.

São 16 cânticos entoados ao longo de 109 páginas molhadas de sangue, com a marca do coração de alguém nascido sob a batuta de Xangô. A apresentação sob as mãos do homem dos homens, o mestre Xico Sá e sua inteligência sagaz, mortal. O livro é um belo copo de hematócitos servido para embreagar os leitores no abismo do que é descrito. E o melhor, não é caro. 

5 Comments

  1. Lucélia
    Posted outubro 30, 2008 at 2:27 am | Permalink

    Agora eu preciso desse livro
    Alguém tem? Empresta?

  2. Posted outubro 31, 2008 at 12:24 am | Permalink

    Muito massa o texto, seu galado!
    Fuderoso!
    Vou ler um livro só pra fazer uma resenha melhor que a sua.
    hehehe
    Borar organizar um desafio estimulante pra essa galera?
    Quem fizer a melhor resenha de livro, pode ser qualquer livro, ganha um doce, azedo.

  3. Posted novembro 5, 2008 at 1:28 am | Permalink

    Xico é o homem.

  4. renato pires
    Posted março 2, 2010 at 12:07 am | Permalink

    Embriagar e não embreagar nesta frase “belo copo de hematócitos servido para embreagar os leitores “. A intenção é apenas ajudar e não criticar por maldade. Abraços à turma.

  5. Ítalo Gustavo
    Posted fevereiro 12, 2011 at 2:02 pm | Permalink

    Gostei muito de seu comentário rapaz, sua análise da obra é muito peculiar, simples, introduz em todo o corpo (do leitor) suas palavras. Espero que possamos conversar, meu email está anexado.

    Parabéns.


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