Ideologia e Família – As Invasões Bárbaras

Por Fábio Farias

Denys Arcand é um dos diretores canadenses mais bem sucedidos do cinema atual. Com 46 anos só de estrada e prêmios que vão desde o Cannes até o da Associação de críticos de Quebec, passando é claro por um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o canadense é famoso por roteirizar e dirigir seus filmes. Com isso fez clássicos como “O Declínio do Império Americano” e “Jesus de Montreal”. Mas foi com “Invasões Bárbaras” que ele escreveu e dirigiu a sua obra-prima.

Afeito a histórias que abordam a questão do socialismo, dos direitos dos trabalhadores e da exploração humana, Denys, cria uma narrativa irônica e, até certo ponto, triste. Em anos nostálgicos de uma década de 60 perdida em revoluções, ismos e ideologias; assistir a “Invasões Bárbaras” é um tapa na cara de quem ainda acredita que a juventude atual luta por questões revolucionárias. Não, não luta.

Rèmy é um professor universitário que quando jovem era um ativista de esquerda. Com um câncer terminal, ele depende do seu filho, Sebastian, um operador da bolsa de valores de Londres, para ter dignidade nos últimos dias da sua vida. O problema é que ambos têm uma relação ruim. Rèmy não admite ter um filho capitalista e sem ideologia e vive em conflito com o rapaz que o ajuda apenas por pedido da sua mãe.

Muito mais do que a questão ideológica, o filme aborda uma questão familiar. Rèmy esperava de o seu filho ser algo próximo ao que ele foi. Quando ele seguiu por um caminho inverso, passou a tratá-lo mal. È comum haver problemas familiares quando os filhos escolhem caminhos diferentes do que os pais esperam. E quase sempre, essa relação de atrito gera rompimentos e traumas eternos.

A complexidade dos personagens é tão interessante e irônica que o pai, age com individualismo enquanto o filho que pensa no coletivo, na família. Sisudo, rancoroso Rèmy nega a ajuda do filho e se entrega aos amigos, ex-amantes e vinhos, enquanto Sebastian chega a subornar pessoas para garantir um final digno ao pai. Envolto nesses personagens ainda há a filha de uma amiga de Rèmy que encontra nele a atenção paterna que precisava para sair do mundo das drogas.

O interessante do filme de Arcand é que ele não procura um maniqueísmo, ele não crucifica a geração atual por ter perdido a ideologia e os sonhos dos jovens das décadas de 60 e 70. Ele mostra um mundo que mudou. Parâmetros que não são mais os mesmos e uma juventude que vive sob este novo princípio, que padece nas drogas ou que aceita as regras do jogo numa época essencialmente corrupta e individualista.

E, nisso tudo, ainda há a família, o sentimento a dor que modifica o homem, que o sensibiliza. Não importa se é o operador ocupado da bolsa de Londres ou se é um socialista convicto, há algo a mais na relação humana que une o pai e o filho, que transcende esses valores e que faz com que Rèmy, ao final, deseje a Sebastian que tenha um filho igual a ele. A ideologia morreu, mas o sentimento não. Nessa perspectiva o filme é tocante e bonito.

Com toda essa doce complexidade e atuações firmes, o filme faturou nada mais, nada menos que o Cannes de Melhor Roteiro e Melhor Atriz, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e mais uma penca de estatuetas para a coleção de Denys Arcand.

One Comment

  1. Posted novembro 13, 2008 at 7:50 pm | Permalink

    Excelente filme!
    Sensível, cru e nu.
    Gostei de suas linhas, parabéns.


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