Daniela

Por Vitor Azevedo
Imagem por Muskawo (Deviantart)

Ela atribuía a si o frescor que havia trazido aos meus dias. Chegava a se gabar por ter resgatado em mim a possibilidade de uma vida novamente interessante. Eu assistia ao dias com um sorriso quase perene, como que agradecido por tudo que a presença dela significava naquele tempo. Daniela, com maestria, usava o auto-reconhecimento como artifício para atrair cada vez mais admiração. Um sujeito tão tímido quanto eu só podia me sentir protegido pela segurança que ela transmitia. E tinhas outros atributos, muitos outros que não vêm ao caso falar agora.

A vida ao lado daquela pequena mulher (tinha 19 anos quando nos conhecemos) foi de uma vertiginosa intensidade. Hoje percebo que foi uma experiência breve, porém, por mais relutante que eu seja, ainda trago marcas dos nossos dias. Algumas atitudes, alguns lugares, minha auto-piedade, memórias.

Daniela me deixou no meio de uma visita ao Jardim Botânico. Debaixo das palmeiras reais, soltou minha mão, fez um silêncio grave, em seguida disse que não me amava mais. Beijou-me a barba e foi embora. Ainda tive tempo de ver uma lágrima em seus olhos castanhos. Minha reação? O que se esperar de um velho de 51 anos subitamente abandonado por uma garota de 19, quase 20?

Eu fiquei imóvel. Permaneci assim durante uns 2 minutos, vendo-a caminhar apressada até sair do meu campo de visão. Não chamei por ela, não abri a boca, não chorei. Permaneci ali, inerte, uma vida inteira. E nunca mais vi Daniela. Nem notícia, telefonema, carta, não, nunca.

Tornei-me um velho petrificado. Sou uma pessoa vazia, desde então. Não me comovo mais com nada, exceto quando visito o Jardim Botânico (e faz alguns anos que eu não ando por aquelas bandas). Até das lembranças me blindei. Meus dias passam mais rápido quando levo o Elvis, meu pincher, pra passear no calçadão. Uma partida de xadrez na praça, uma visita à banca, olhar o mar de manhã cedo. Gosto também de andar de metrô, nem precisa de destino certo. Mesmo que literal, me inspira movimento. E isso me parece imprescindível para não morrer.

Tenho um coração saudável para as pessoas de minha idade. Nunca fui chegado em vícios. Só bebi na época em que estava com ela, lá se vão o quê, 10 anos, eu acho. Não me lembro bem. Relembrar certas coisas não é mais tão fácil quanto antes. Mas eu falava do coração. Ontem pensei que ia ter um infarto ao chegar em casa. Ontem à tardinha. Tombado na poltrona, senti meu peito se dilacerar, uma dor atroz. Paradoxalmente, há tempos não me sentia tão vivo, tão sensível.

Horas antes, no metrô, três estações antes da que habitualmente desço, uma criança correra em minha direção. O garoto sorriu pra mim e pôs a mão no meu braço. Eu não me considero um velho ranzinza, mas não me enterneci com a cena, não fui cortês. Ele então correu até uma mulher que estava sentada ao lado da porta do vagão. Ela o pegou no colo e observou para quem o seu filho apontava. Reconheci na mesma hora aquele olhar acastanhado. Daniela sorriu, como uma forma de assentir a simpatia do pequeno com aquele senhor comum sentado no metrô. Instintivamente me encolhi no assento reservado para idosos, como se estivesse tomado de extrema vergonha de mim. Talvez não fosse isso, mas assim reagi. Enquanto espiava de soslaio aquela outra Daniela, ela, mãe dedicada, brincava com seu filho alguns bancos à frente.

Acabei descendo uma estação antes da minha, meio atordoado. Teria ela me reconhecido? – Não, não é possível – remoia dúvidas. Estaria ela casada? Será que era feliz? Talvez ainda carregasse a segurança inabalável das mulheres bonitas. Nunca o caminho para casa havia sido tão longo.

Ontem eu podia ter morrido. Eu queria ter morrido, na verdade. Mas estou vivo, fisiologicamente falando. Aquele encontro no metrô levou de mim toda a fortaleza, a blindagem do íntimo. Hoje acordei e não quis sair da cama. Elvis latiu a manhã toda. Até trouxe a coleira pra cima do meu travesseiro. Ainda fragilizado pela dor da última tarde, levantei e olhei pela janela do apartamento. O bonito dia que se descortinava lá fora compreendia uma espécie de justiça poética para os últimos acontecimentos. Uma recompensa. E alguma coisa me dizia: vá gastar o tempo que ainda te resta.

One Comment

  1. Andrielle Mendes
    Posted fevereiro 15, 2009 at 9:52 pm | Permalink

    A crônica é forte e ao mesmo tempo sensível. As palavras foram escolhidas com autoridade. A palavra certa no lugar certo e na hora certa. Não é nada fácil escrever crônicas.


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