O Cara é tímido

arnaldo

Por Fábio Farias

O cara sentou meio tímido. O spot jogava uma luz amarela que quase cegava os seus olhos. A medida que viam o homem se posicionar no centro do palco, dezenas, centenas de pessoas ocupavam as cadeiras para ouvir o que ele tinha para falar. Os ombros estavam tensos, as pernas, inquietas e o público sedento. Com uma voz mansa e baixa o cara disse que iria falar um pouco da sua forma de criação, dos poemas, da sua vida. Fez mais que isso, se transformou.

Movimentava muito as mãos quando falava, as pernas não paravam. Arnaldo Antunes passa facilmente por um homem tímido. Só a voz não falhava. Ele falou da sua relação íntima com a poesia visual e as formas poéticas que trasncedem o modo comum de fazer poesia. Sem esquecer, é claro, sua relação com a contracultura e o rock’n’roll.  Falou das bandas que gostava e do seu método poético trasngressor, dos rótulos e essas bobagens que invantam para classificarem os artistas.  E, de repente, ele quis mudar, terminar.

“Vou declamar dois poemas e ai vocês começam as perguntas”. Declamou cinco. E cantou. A música transformou o homem tímido. Ele se contorcia no meio do microfone, os pés batiam e o público, boquiaberto, acompanhava a mutação do cara tímido em um mostro. Daqueles bem feios e que assustam pela sua capacidade de nos engolir para um vórtice dentro do corpo dele, da voz dele, dos versos dele. O público mergulhou, teve momentos em que queria aplaudir cada verso que saía da boca do monstro e em outro, na verdade em um em particular, não se sabia se a música/poema tinha terminado. 

Seus versos são geniais. 

 

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