Roda Viva (Agora morta)

Por Ramon Ribeirocassiano arruda

No dia 23 de abril, o jornal Diário de Natal foi às ruas diferente. Faltava naquela edição matutina um espaço importante, histórico. Era o fim da coluna Roda Viva, assinada por Cassiano Arruda Câmara, um dos grandes jornalistas ainda vivos do Rio Grande do Norte. Em seu lugar aparecia a coluna Observatório DN, assinada pela jornalista interina Flávia Urbano.

Roda Viva completaria no dia 18 de maio 37 anos. A coluna, sempre diária, e fora algumas exceções, sempre na segunda página, teve seu fim decretado com a demissão de Cassiano. “O Diário está passando por mudanças. Eles mudaram a cara do jornal, estão com um novo projeto. A coluna não estava de acordo com o que eles planejaram, então o meu serviço passou a não interessar mais. Faz parte do jogo”, comenta.

A coluna, assim como terminou de forma abrupta, sem pelo menos um esclarecimento no jornal, nasceu em 1972, meio acanhada, sem a assinatura do autor, no período em que Cassiano era editor geral do Diário.

Na época, o jornal tinha 12 páginas e o grande colunista era Sanderson Negreiros com a Quadrantes. No entanto, Sanderson teve de se licenciar e Cassiano soube da informação pouco tempo antes de fechar o jornal.

O problema poderia ter sido resolvido com calhau, gíria para matéria fria, texto tapa-buraco. Mas ele não achou justo, e na falta de algum jornalista disponível na redação, resolveu sozinho ocupar o lugar com notas e um texto referente ao início das discussões sobre as eleições municipais no Estado. Ao ouvir no rádio a famosa canção Roda Viva, de Chico Buarque, batizou o espaço. Três meses depois, mesmo com a volta de Sanderson, a coluna de Cassiano estava consolidada e o seu estilo se tornara inconfundível.

Para Cassiano, no alto dos seus 65 anos, 45 deles dedicado ao jornalismo, não é fácil se desvincular de alguns vícios. Por exemplo, lê dez jornais por dia, e é tradicional, gosta dos impressos. Na internet, apenas o Globo e Jornal do Brasil. E sobre a grande rede, ele diz que até tentou se misturar, lançou um blog (atualmente está parado), mas confessa não ter essa cultura.

“Estou em quarentena. Quase 37 anos com essa rotina. Não sei se ainda me interessa continuar com coluna diária”, responde o ex-colunista quando perguntado se aceitaria uma proposta de algum outro jornal. “O colunista é jornalista 24h, não tem sábado nem domingo. Você vai numa festa para se distrair, beber, e acaba não podendo porque descobre uma notícia espetacular, aí você deixa de beber para poder se lembrar do assunto no dia seguinte”.

Cassiano, aluno da primeira turma de jornalismo da Faculdade Eloy de Souza, passou por praticamente todas as atividades jornalísticas. Foi foca, repórter, chefe de reportagem, editor, diretor de redação e colunista. Passou pelos jornais Tribuna do Norte, Diário de Natal, Rádio Poti, TV Ponta Negra, revista Manchete, Jornal do Brasil e O Globo. Foi assessor de imprensa do prefeito Agnelo Alves e do Governador Cortez Pereira, fez campanha política para José Agripino e para Wilma de Farias.

Apesar de desempenhar tantas atividades no jornalismo, Cassiano também enveredou para publicidade, logo cedo, antes até de ser repórter, e mais tarde quando se tornou sócio da Dumbo, que foi por um bom tempo a maior agência de publicidade do Estado. Atualmente, além de ser um dos donos da Art&C, agência comandada pelo seu filho Arturo Arruda, ministra aulas no curso de jornalismo da UFRN, na cadeira que há 31 anos é sua, a de Comunicação Publicitária.

“Já passei do tempo de aposentadoria, mas continuo na UFRN porque isso me faz se esforçar para estar atualizado e estar em contato com a turma jovem. Eu não estou aqui por dinheiro, estou aqui porque gosto desse lugar. Só saio daqui quando me botarem pra fora”, declara.

Sobre a criação do novo curso de Publicidade e Propaganda, Cassiano não comemora tanto. “Fui convidado pelo reitor para ajudar na elaboração do projeto do curso. Mas desconfio que haja um engodo. A UFRN está fazendo o que as privadas têm de pior, enchendo a universidade de alunos sem se preocupar primeiramente com a qualidade do ensino.

Depois da demissão do Diário de Natal, Cassiano tenta ajeitar a rotina. Pela manhã, freqüenta a Art&C, de onde às 10:30h, por telefone, faz um comentário ao vivo na rádio CBN. Às 13:30h, faz um comentário no jornal da TV Tropical. À tarde volta para a agência. Duas vezes por semana Cassiano dá aulas na UFRN.

Além disso, acostumado a escrever cinco laudas por dia devido aos quase 37 anos de colunismo, produz seu segundo livro, ainda sem nome e previsto para ser lançado no fim do ano. O livro contará o episódio de sua prisão, em pleno período ditatorial, que no último sábado (16), completou 40 anos.

Cassiano, na época com 25 anos e já editor chefe da Tribuna do Norte, sem ser de esquerda – como até hoje não é, e o então prefeito de Natal Agnelo Alves foram responsabilizados pela publicação de duas notas que desagradaram os militares locais. Os dois ficaram presos por 49 dias na Base Aérea de Natal.

A idéia para escrever sobre o episódio surgiu depois que Cassiano releu algumas cartas antigas que mandava para sua noiva Nilma Dias no tempo em que esteve preso. Conversando com um amigo, atendeu a sugestão de transformar aquelas correspondências em livro.

Cassiano conta que contextualizará as cartas. Para tanto, ele diz trabalhar com alguns direcionamentos. “Por se tratar de uma prisão política, o livro não pode deixar em branco o cenário político da época. Assim como a Natal de 1969, em plena ditadura militar”, comenta.

Seu primeiro livro foi “Um repórter na roda viva – do tipo móvel ao notebook”, lançado em 2002, em comemoração aos 30 anos da coluna Roda Viva.

3 Comments

  1. Posted maio 30, 2009 at 3:23 pm | Permalink

    Um dos jornalistas “ainda vivos” é foda. Olha o bolão pé na cova…

  2. Maurício
    Posted junho 16, 2009 at 10:00 pm | Permalink

    Rapaz, quanta inocência de um estudante de jornalismo. Se esse rapaz soubesse pelo menos um quinto do que o paquidérmico fez e faz para ganhar dinheiro talvez não escrevesse isso. Talvez porque pode ser da mesma estirpe. Garoto, não se iluda com esse ser. Não seja engabelado pelo que ele fala nas salas espúrias da UFRN. É um conselho de alguém mais experiente.

  3. Posted junho 17, 2009 at 3:16 am | Permalink

    Como aluno de jornalismo, já tive aulas com ele, e sei como são. Muito chatas. Mas Cassiano não é só professor e publicitário. Foi jornalista. Tem lá as suas preferências, seus posicionamentos, sua ideologia, tudo muito diferente do que eu penso.

    Cara, sei que ele é metido em política, fez campanhas para Wilma e Agripino. Mas o fato é que Cassiano tem história, é experiente, talvez mais do que você. E creio que ele possa ser visto como um dos grandes jornalistas do RN.

    Se estiver errado, peço desculpa. E gostaria até de saber quem mais poderia se tido como grande jornalista do Estado, pois no Curso a gente não fica sabendo, talvez porque não exista? Será que dá pra contar nos dedos?

    Legal você discordar. Faz bem. Mas quando falar que alguém é um “paquidérmico”, diga pelo menos o por que, se não, assim como você achou que eu fosse da “estirpe” de Cassiano, alguém poderia achar que o seu problema com ele é apenas pessoal.

    Abraço.


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