Barro e Sangue

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Por Fábio Farias

Manhã em São Gonçalo do Amarante. Um tiro. Um corpo no chão. “Itep, itep, temos um corpo em São Gonçalo”. Outro tiro. “Itep, itep temos mais dois corpos”. Tiros. “Itep, Itep, precisamos de reforços, temos mais quatro corpos em São Gonçalo!”.

A história é real. Ano de 1997. Genildo França, militar reformado, irritado por estar sendo taxado de homossexual, decide mostrar que é caba macho e mata 14 pessoas no distrito de Santo Antônio dos Barreiros em São Gonçalo do Amarante, na grande Natal. Os assassinatos aconteceram em apenas 12 horas. Depois, cercado pelos policiais, comete suicídio.

O caso é um clássico da crônica policial potiguar. O terror que Genildo impôs ao município foi tão forte que no fatídico dia a população fugia da cidade enquanto apenas os policiais entravam. Policiais e jornalistas. É o maior caso de assassinatos em série registrado nas terras de Câmara Cascudo.

A história não poderia ser melhor. Mantendo como refém sua própria filha de cinco anos e uma das suas mulheres, Genildo usava duas armas, um colete a prova de balas e matava quem desse na telha. A competência dele para os assassinatos e a fuga, transformou o homem em uma lenda urbana celebrada pela imprensa nacional e internacional.

Como toda boa história, havia ainda um capricho: depois de matar suas primeiras vítimas,  Genildo escreveu uma carta que deveria ser lida apenas pelo repórter J. Gomes do programa Patrulha Policial da TV Ponta Negra, um de Aqui Agora versão natalense.

Na carta, Genildo admite o “erro”, pede desculpas, diz que seu ato serve para a população não fazer “falso testemunho” das outras pessoas, reafirma sua masculinidade e o algoz ainda deseja o paraíso às suas vítimas. É a moral da história escrita pelo vilão.

A semelhança do fator desencadeador da sede de sangue em casos como o de Columbine, nos Estados Unidos e o que aconteceu recentemente na Alemanha é marcante e demonstra um padrão entre assassinos em série atiradores. O preconceito social que pode enlouquecer algumas pessoas. Uma espécie de vingança dos excluídos.

A história de Genildo França virou documentário nas mãos de Fábio DeSilva e Mary Land Brito, sob a benção do Ministério da Cultura e do projeto DocTV. “Sangue de Barro” teve estreia fechada para imprensa na última quarta-feira e nesta terça-feira (9) será exibido no Teatro da Cultura Popular às 19h

O Doc reúne além da boa história, uma fotografia com tomadas muito bem filmadas e uma trilha sonora excelente. Peca na falta de G.C dos entrevistados, o que deixa o espectador confuso e sem saber quem está falando. Ainda sim, vale a pena. A história é fascinante.

Para os que não moram em Natal, uma boa notícia. “Sangue de Barro” será transmitido na TV Brasil em outubro deste ano.

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