Jesus e seu tiro de misericórdia

Jesus Kid

por Beto Leite

Quando era mais novo achava que uma resenha era composta por dois parágrafos de sinopse e dois de opinião. Já faz uns cinco minutos que estou com o dedo sobre a tecla “enter”. Já formatei algumas frases soltas de milhões de formas diferentes esperando que uma idéia genial surja. Coço a cabeça olho para o lado. Livros, filmes na estante. Nada. Nenhuma idéia. A culpa é de Ramon. “Por que você não escreve uma resenha pro blog?”, disse. Mentira. A culpa é minha que provoquei.

– Terminei de ler Jesus Kid.

– Do Mutarelli?

– Isso. É massa!

– Por que você não escreve uma resenha pro blog?

– Parece com “Adaptação”. – tento escapar.

– O filme? Do Spike Jonze?

– É, você vai gostar.

– Por que você não escreve uma resenha pro blog?

Eu não queria admitir. Faz tempo que não escrevo nada. O hidrante está às moscas.

– É mesmo.

– Estamos precisando de resenhas no blog.

De imediato tive a idéia de escrever uma resenha usando a metalinguagem, visto que o livro abusa desse recurso. Daí vem Ramon:

– É foda trabalhar com metalinguagem sem cair no clichê.

Se Jesus Kid estivesse ali sacava sua arma e mandava a cabeça de Ramon pro espaço. É dessa forma que Eugênio, personagem principal do livro, pensa a todo o momento. Escritor de Western, com a auto-estima muito baixa, Eugênio (legal a sacada do nome) recebe a proposta de escrever um roteiro de filme com as estórias de Jesus Kid, seu principal personagem. E aceita. Mas as coisas não são tão simples. Por contrato, Eugênio deve ficar trancado por três meses em um hotel luxuoso, do qual, não poderá sair. E o roteiro deve falar sobre a experiência de um escritor em sua clausura criativa no hotel. Sem verborragia, até porque tem que ser um filme de ação com Jesus Kid.

Partindo da premissa absurda de associar clausura com ação, Lourenço Mutarelli faz uma crítica feroz ao mercado cinematográfico e editorial. Nesse romance ele escacha todas as fraquezas de um sistema comercial que mescla arte com dinheiro, ganância com sonho, mesquinharia com ambição. Um livro explosivo, daqueles que não dão tempo de recuperar o fôlego, que muda seu ritmo cardíaco. Com seus personagens assustadoramente humanos, que oscilam entre o grotesco e o puro, santos e canalhas, em Jesus, Lourenço da o golpe de misericórdia.

Mandei meu texto de meia lauda pro Ramon. Ele manda uma página de sugestões e correções. Eu com essa idéia batida de falar sobre meu próprio texto. Por isso o Mutarelli é o cara. Ele passou por uma situação parecida e fez bem melhor.

O cineasta Heitor Dhalia quis realizar um filme de baixo orçamento. Chamou, então, Lourenço pra desenvolver um roteiro. Do processo de criação surgiu Jesus Kid, até certo ponto, autobiográfico. É metalinguagem da boa (diferente dessa resenha), que não acaba mais. Um tiro na testa, saído do cano quente de uma Smith & Wesson, cabo de madrepérola, após a badalada das 12h no relógio central da cidade. Jesus Kid contempla a sua vitima no chão, sopra a fumaça na ponta da arma, depois o diretor grita: “corta!”

Site do Loureço Mutarelli: www.mutarelli.com.br

6 Comments

  1. Posted junho 10, 2009 at 2:22 pm | Permalink

    É um livro OK, na melhor das hipóteses. Prefiro bem mais o Mutarelli quadrinista que o escritor. Uma coisa que me incomodou e, a bem da verdade, me incomoda em 90% dos “novos” escritores brasileiros é a mania de escancarar as referências/influências no meio da história. “Fulaninho levantou e colocou um disco de Bob Dylan para tocar”, “Ela gostava de Vinícius e de Chico Buarque, mas naquele dia ouvia Strokes”, etc. No caso do Mutarelli, ele faz tanta questão de deixar explícito que bebeu de Adaptação, Barton Fink (esse de forma bem mais escancarada) e de John Fante que eu fiquei sem entender se isso era para ser mais uma sacada “metalinguística” ou era falta de elegância mesmo. E se deu margem para essa dúvida, pra mim já é uma falha.

    Um adendo: eu passei pra frente esse livro no site Trocando Livros, para um cara aqui de Natal mesmo. Foi tu?

    abs

  2. betoleitefilho
    Posted junho 10, 2009 at 3:18 pm | Permalink

    Eu mesmo!

    hahahaha

  3. Posted junho 10, 2009 at 7:24 pm | Permalink

    Que mundo pequeno, hein?! Trocando Livros pregando peças e fazendo circular pérolas e refugos literários.

    Beto, aproveita e põe o Jesus Kid pra trocar no site. Te garanto um crédito. Fiquei curioso pra ler.

  4. Ramon
    Posted junho 10, 2009 at 8:52 pm | Permalink

    Podes crê. É bem comum se ver citações de referências nos livros dessa nova turma de escritores. É um clichê da metalinguagem, apesar de algumas referências serem da música, filmes ou até mesmo da TV.

    E, Beto, marginal, se Jesus Kid estivesse aqui sacava sua arma e mandava a tua cabeça pro espaço. Nojeeeento!

    Hehehehe.
    Valeu.

  5. Beto Leite
    Posted junho 10, 2009 at 10:01 pm | Permalink

    Na hora!

  6. Posted junho 19, 2009 at 5:52 pm | Permalink

    Como Jesus Kid a seu gatilho, fui mais rápido que o Vítor e saquei do Beto o crédito; de Natal, vejam só, veio parar o livro em Campinas. Já o tinha lido e pedi só mesmo pra reler e ter aqui comigo. Acho um belo livro, se querem saber. Esse estilo do Mutarelli é fantástico.

    Aproveito pra dizer que curti o blog e que vou seguir (já adcionei ao meu PQP – postoqueposto.blogspot.com); bacana lançar a ideia do Trocando Livros adiante; mais do que o livro, o importante é o ato da troca, e conhecer-se com que se está a trocar. abraços


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