Casa da Ribeira: Essa luz pode apagar

DSC_0079Fotos e texto: Fábio Farias
Edição: Priscila Adélia

– Quero deixar que vocês criem. Não se preocupem com o certo ou errado apenas criem. Gritou Henrique para uma turma de cerca de dez alunos que se amontoava no palco de madeira da Casa da Ribeira, no escuro.

Confusos, os meninos e meninas cataram os pedaços de papel e releram o que estava escrito. A expressão geral era de dúvida.

– Dou 20 minutos para vocês ensaiarem.

O Arte e Ação é um dos projetos de cunho educacional e cultural desenvolvido num dos principais centros de cultura independente do Brasil, a ONG Casa da Ribeira em Natal, no Rio Grande do Norte. Com oito anos de incentivos na produção teatral e em outras áreas como a música e as artes plásticas, o ambiente corre o risco de fechar. De novo.

Dificuldades Financeiras

Neste mês a Casa da Ribeira teve suas atividades interrompidas por corte na energia elétrica. Estavam com três meses em atraso. Além disso, estão com a conta de água, e os salários dos cinco funcionários do centro cultural atrasados. Não é novidade, muito menos notícia. A Casa dificilmente se mantém, mesmo com os editais e as leis de incentivo a cultura

– Nascemos sob o iminente risco de fechar. Já o fizemos uma vez e isso pode acontecer novamente – afirma o calmo diretor da Casa da Ribeira, Henrique Fontes, agora sentado em uma das poltronas do teatro.

A principal fonte de renda é a pauta que custa R$ 430 – quantia necessária para se fazer uma apresentação no teatro. Um preço alto para os artistas potiguares e que só pode ser pago pelas grandes produções. Mas não é a idéia da Casa da Ribeira. Os diretores se recusam a abrir mão da curadoria das apresentações por causa de dinheiro. Isso vai contra os objetivos do centro cultural. Por outro lado sofrem com a falta das pautas.

– Mesmo se abríssemos toda a nossa pauta, não teríamos dinheiro suficiente para manter a Casa. A pauta teria que custar em torno de R$ 1 mil. Mas não queremos fazer isso, não é a nossa idéia abrir mão da curadoria e de uma política de fomento as artes.

Economia da cultura. O artista em Natal é mal remunerado, não tem dinheiro para pagar a pauta e aí a Casa da Ribeira sofre. É um efeito dominó, ampliado pela falta de políticas públicas de formação e incentivo a produção cultural, problema esse já clichê na terra de Câmara Cascudo.

A falta de demandas artísticas para se apresentar na Casa gera o eterno problema da falta de dinheiro. Por outro lado, ações da ONG voltadas à formação cultural são sustentadas por meio de editais de incentivo a cultura, mas estes são insuficientes para manter financeiramente o local. O Centro Cultural vive um paradoxo.

Paradoxo

Chega-se a um hiato. Grande parte dessas frustrações foi “desabafado” e enviado para a imprensa por Henrique Fontes em uma carta assinada por ele e pelos outros dois diretores da instituição – Edson Silva e Gustavo Wanderley. A carta toca em uma ferida profunda nas relações culturais de uma cidade que fica a margem dos grandes centros: o esquecimento do ponto de vista financeiro tanto pela iniciativa privada, quanto pelo poder público.

– O Governo tem uma política cultural voltada para eventos. É difícil colocar na cabeça deles a necessidade de fomento de público, é difícil fazer entender um determinado conceito de arte e de cultura.

A crítica soa mais como um desabafo, com um certo tom de frustração talvez mal calculado por um calmo e gentil Henrique Fontes. As políticas culturais no Rio Grande do Norte centralizam-se em editais e em eventos. Sim, há uma preferência pelos eventos, mas existe, ainda que tímido, uma política voltada para o fomento e para os artistas.

Um exemplo delas foi dado pelo próprio Henrique. O Projeto Cena Aberta aprovado pela leis de incentivo a cultura vai beneficiar artistas cênicos que desejam apresentar seus trabalhos para o público, mas não podem por falta de dinheiro. A medida deve beneficiar e movimentar a Casa da Ribeira, fazendo girar a enferrujada roda da economia da cultura em Natal.

Aqui vale uma reflexão paradoxal: se existe um teatro mantido pelo poder público, por que a curadoria de um Centro Cultural Independente é mais seletiva? Por que é só na independência que existem boas iniciativas para a formação cultural se a manutenção financeira é delicada?

Um pouco do tom de frustração de Henrique talvez more nestas respostas. Quem ajuda a Casa da Ribeira desde a sua primeira crise é a iniciativa privada. O apoio e o incentivo deles ajudaram na reabertura do espaço ainda em 2004, depois de carta levada a imprensa declarando o fechamento do local.

E quando chegamos na iniciativa privada, voltamos a questão básica do hiato que vive a iniciativa cultural: teatro, cultura, formação, em um contexto que a educação ainda é falha, não gera lucro em curto prazo. Gera capital simbólico para o futuro. Numa cidade em que a visibilidade e o valor dado à imagem do cultural ainda é pequeno, as empresas acabam por não ter interesse.

O que sobra, de novo, é o poder público por meio dos editais. Nesse meandro, existe a lei Rouanet e as suas mudanças que, segundo se promete, visa descentralizar mais a sua abrangência – praticamente restrita a projetos do centro sul do país. Vista com desconfiança por Henrique.

– As mudanças na lei podem ser boas, mas podem ser muito ruins. Um controle maior do Governo Federal pode gerar uma panelinha. Além disso, o teatro é cada vez mais local, não acho será muito beneficiado.

Problemas a parte, fato é que a Casa se notabiliza pelas boas idéias. Uma delas é o Arte e Ação, capitaneado junto com o Instituto Ayrton Senna, que trabalha o teatro em alunos de escolas da rede pública. Alunos que, com a licença do clichê, acabam vendo na arte uma nova forma de se expressarem.

– Esses alunos estão comigo há três anos e estamos em fase de montar um grupo profissional com eles.

E o orgulho tomou conta do inexpressivo Henrique ao falar dos seus alunos, que logo se apresentariam para ele e a assistente. A base da formação, do fomento está ali, fora de qualquer abstração, no trabalho diário de educação cultural com alunos que, não fosse a iniciativa, talvez estivessem assistindo a novela naquela hora da noite.

One Comment

  1. Ramon
    Posted junho 17, 2009 at 6:01 pm | Permalink

    Fui poucas vezes na Casa da Ribeira, mas semprei achei esse espaço muito bom.

    Se perdermos a Casa, é um passo que a cultura local dá pra trás. Seria uma pena.

    É bom que essa crise financeira passe e sirva pra se pensar como o espaço é gerido.

    Pra terminar. Há público para as artes cênicas em Natal?


2 Trackbacks

  1. […] Natal, no Rio Grande do Norte. Com oito anos de incentivos na produção … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  2. By A Casa da Ribeira on março 30, 2010 at 8:14 pm

    […] segunda ameaça de fechamento ocorreu no ano passado. O Centro Cultural chegou a ter sua luz cortada por falta de pagamento. O salário dos funcionários estava atrasado. Mesmo sendo considerado Ponto […]

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