Lá na Carioca

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Por Ramon Ribeiro

Numa quinta-feira à noite, feriado, a Rua Gonçalves Ledo estava deserta. Como quem desce para o Baldo, no bairro de Cidade Alta, notei de longe que a casa de número 808 parecia estar bastante movimentada. Presumi que só poderia ser lá. Olhei calado, procurei alguma sinalização, alguma placa. Nada. “Pode entrar. É aqui mesmo”, me disse uma mulher rente ao portão. Ela estava com mais três amigos conversando e bebendo na frente da casa. Entrei.

Poucas mesas e todas ocupadas. A velha guarda do Beco da Lama estava presente. Eu, moleque ingênuo, estava admirado com tudo, apesar de que aquilo tudo não era nada demais. E percebi isso. E gostei de estar ali, por esse simples motivo. Porque estar naquele lugar, num espaço que parece uma casa (e é), me fez sentir no meu próprio lar. Era um lugar pequeno, mas aconchegante. E os vizinhos das mesas próximas eram todos ótimos companheiros. E bons bebedores.

O cardápio do bar não tem variedade, tenho que ser sincero. Mas serve. Tem cerveja e para alguns basta. Quem quiser ir de destilado, pode se refrescar com caipirinha. Provei e aprovei. Boa porção e de ótimo sabor. De petiscos, a casa apresenta de dois tipos: Cumbucas ou Brochetes, neste caso, espetinho – pra ficar mais claro. Fui de cumbuca, e poderia ter optado por uma feijoada, escondidinho, por que não uma paçoca? Mas preferi um caldo de camarão. Ótimo. Com boa quantidade de camarões, bem temperado e acompanhado com torradas de pão integral. Fiz bom proveito.

Franklin Nogvaes e Maria Clara davam um clima musical ao espaço, mostrando um repertório de canções bem atraentes, com Bossa Nova e Jazz. E numa determinada ocasião, Lula Augusto, atual presidente da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba), que não soltava o copo, pegou o microfone de Franklin e recitou: “Há quem diga que eu dormi de touca, que eu perdi a boca, que eu fugi da briga… Eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, botar pra gemer”. E a música de Sergio Sampaio começou. Em seguida vieram outras canções que fizeram os presentes se levantarem e cantarem juntos. O clima era de descontração, como se todos ali se conhecem. E se conheciam.

Quem botava a ordem na casa era Biba. Mulher carismática, de olhos claros e cabelo castanho. Estava agitada, andava pra lá e pra cá, servindo a todos, sempre sorrindo, mostrando a simpatia que tem. Seu nome é Mathilde Thompson e quando ela abre a boca, por mais que esteja há 14 anos em terras potiguares, não esconde o sotaque carioca. É uma becolamense de carteirinha. E em seu bar, nas imediações do beco, muitos dos presentes são seus amigos.

Biba declara que é apaixonada por Natal, essa terra fértil em cultura. “Quando visitei esta cidade, vi todo mundo nas calçadas, crianças brincando. Fiquei numa casa com uma vista linda pra cidade. Aí eu pensei: vou voltar pro Rio? Nada. Peguei minhas coisas e vim morar em Natal. Me apaixonei”, diz, para em seguida falar sobre seu envolvimento com o Beco da Lama.

“Meu vizinho era Bosco Lopes, grande poeta e boêmio. Foi ele quem me apresentou à boemia daqui. Na época, eu era uma das poucas mulheres que freqüentavam o Beco da Lama. Daí eu fui me envolvendo com Natal e com natalenses (risos). Me envolvi com a Samba, sendo uma das fundadoras”, conta Biba, que no Rio de Janeiro cantava MPB e Bossa Nova em barzinhos.

Ivana Issa, amiga de longa data de Biba, tem importante papel na existência do bar. É ela quem prepara os drinques e os petiscos. “Conheço Ivana há pelo menos 10 anos. Sempre foi uma grande amiga. Talentosa profissional do turismo e com experiência em gastronomia. Sem ela o bar não estaria com esses deliciosos petiscos e com essas maravilhosas bebidas”, comenta Mathilde.

Nem só de música boa e birita vai viver o bar de Biba. Pelas paredes da casa sempre se verá telas de artistas locais. Na ocasião, quem tinha seu trabalho exposto era o artista Pedro Pereira. Em um espaço permanente ficará a exposição do pai da empresária, que pintava nus. “A casa terá música, artes plásticas, poesia. Sempre valorizando a cultura brasileira e local. Natal é fértil em cultura. E por isso queremos colocar a galera da terra. Valorizar o trabalho dos artistas”.

Mathilde realmente aprecia e se dedica em divulgar a arte potiguar. Em sua casa cuidou do poeta Bosco Lopes, quando este estava com problemas de saúde. Atualmente ela hospeda o compositor Romildo Soares, que para ela “é um dos maiores compositores potiguares, talvez até nacionalmente”, e que não recebe o devido reconhecimento.

Biba, mesmo cansada não perde o sorriso. Diz que não bebeu durante a inauguração do bar, mas tenho minhas dúvidas. Comenta que ver o bar lotado, cheio de amigos, com uma galera superbacana é maravilhoso e uma honra. E ainda declara: “espero que as pessoas se sintam bem e felizes. Pois aqui é tudo feito com carinho e amor. Fizemos esse espaço com o coração”.

Assim é o Lá na Carioca, um bar, uma casa, a realização de um sonho antigo. Aberto de quinta-feira a sábado, sempre com alguma atração artística, a partir das 18h, pra quem quiser aparecer. Como eu, que já na inauguração cheguei de supetão, no meio do que parecia ser uma comemoração entre amigos, e fui bem acolhido. Viva a boemia becolamense. Viva o Lá na Carioca.

One Comment

  1. Posted agosto 29, 2011 at 8:02 pm | Permalink

    Pela resenha, parece ser um ótimo lugar mesmo; bem do meu agrado. Quero só ver se você tem razão =]


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