Imagens de uma nova geração

mcginley_marcel_ann__coleyPor Ramon Ribeiro

Que os jovens não são mais os mesmos de 40 anos atrás, praticamente todo mundo sabe. Mas conseguir explicar quem é essa molecada de hoje não é tarefa das mais fáceis. Um jovem, no entanto, conseguiu, através da fotografia, atrair os holofotes pra si ao expressar com tamanha proximidade essa geração.

Tudo bem que Ryan McGinley não seja mais tão jovem como quando começou, aos 22 anos, idade em que enviou para 100 pessoas, dentre elas artistas e editores de revista, um álbum contendo 50 fotografias suas. Intitulado “The Kids Are Alright”, algo como “As crianças estão bem”, o álbum despertou o interesse de críticos que passaram a observar com mais atenção o iniciante fotógrafo.

Os retratos mostravam amigos seus em situações inusitadas. Práticas como a masturbação, o sexo, o uso de drogas, foram registradas pelas lentes de Ryan, que fazia questão de mostrar a nudez dos modelos. Ações não muito abordadas na fotografia, mas que tem alguns expoentes, que, por sinal, serviram de inspiração para o trabalho de McGinley. A fotógrafa estadunidense Nan Goldin, por exemplo, ficou conhecida pelo realismo com que exibia seus amigos, e ela mesma, em situações íntimas e reveladoras. O alemão Wolfgang Tillmans foi outro que mostrou os amigos em imagens desconcertantes.

ryanO polêmico fotógrafo e cineasta Larry Clark, diretor de Kids e Ken Park, foi um que mexeu bastante com Ryan, quando este, ainda um garoto que gostava de skate, lhe serviu de modelo para muitas fotografias sobre o cenário de skatistas nova-iorquinos. No entanto, McGinley consegue ser diferente, pois não sustenta seu trabalho numa abordagem desesperançada que culmina na degradação dos jovens. O artista expressa a busca por uma vida sem limites.

“Seu estilo solto, sensual e alegre é um dos mais imitados, mas poucos conseguem atingir seu equilíbrio aparentemente obtido sem esforço, entre sofisticação e imediatismo”, comenta Vince Aletti, crítico da revista The New Yorker.

Ryan impressiona, pois apresenta o nu, assim como as drogas e a sexualidade, de forma leve e poética. O fotógrafo consegue que os jovens pareçam indiferentes a sua presença, de forma que as imagens saiam desfocadas ou contra a luz, numa intimidade despreocupada, até certo ponto, reforçada pela nudez.

maisTrata-se de um trabalho intuitivo, mas que não deixa de ser devidamente pensado e conceituado. Numa entrevista para a revista alemã Kultur Spiegel, em 2008, Ryan explicou o procedimento do seu trabalho. “O estilo parece documentário. E são realmente os meus amigos, ou as pessoas pelas quais eu me interesso, com as quais eu viajo por aí de forma maluca pelo país. Tudo que se vê nas fotos aconteceu – também o sexo. Mas não teria acontecido se não tivéssemos saído com o intuito de fazer essas fotografias. Eu procuro o local, reúno certas pessoas, e aí deixo acontecer”.

É dessa maneira que Ryan consegue transmitir de forma bela e profunda o espírito de uma geração. “Os jovens estão ali porque significam algo para nós. Denunciam algo sobre nossos anseios pela liberdade, nossa alma rebelde, mas também algo sobre o desejo por proteção, por um lugar feliz, em que nada ruim pode acontecer – e onde todos podem correr pelados, se assim quiserem”, comentou o artista à revista alemã, e ainda falou sobre a semelhança com o movimento juvenil do Flower Power, da década de 60. “Eu adoro o espírito rebelde dos anos 60. Aquela coisa das idéias coletivas, da politização, do ganhar voz. E, é claro, havia as drogas. Eu não quero de forma alguma fazer propaganda, mas não é normal que se experimente nessa idade?”.

heheMcGinley é um otimista da juventude, e muito se deve a sua formação, desde Nova Jersey, nos Estados Unidos, onde nasceu em 1977, até os tempos em que andava de skate pelas ruas de Nova Iorque. Em casa, os pais davam liberdade para os quatro filhos tratarem de qualquer assunto, de forma esclarecedora e sem tabus. Ouvia as bandas Sex Pistols, Patti Smith, curtia Punk Rock e Ska. Entrou na faculdade de Design Gráfico, e lá, descobriu sua paixão pela fotografia. Desde então o fotógrafo consegui importantes feitos. Com 26 anos, Ryan foi o artista mais jovem a ter uma exposição individual no Whitney, um dos mais célebres Museus de Arte de Nova Iorque, e recebeu um prêmio de fotógrafo do ano, em 2003, concedido por uma revista especializada.

Em 2007 lhe foi dado o prêmio de melhor fotógrafo jovem pelo Centro Internacional de Fotografia. No ano passado iniciou uma nova exposição, “I Know Where The Summer Goes”, que em português quer dizer “Eu sei aonde vai o Verão”. O título sugere movimento, o caminhar às vezes sem rumo dos jovens, que nas imagens estão em quedas livres, saltos, corridas, sempre sem perder a essência do estar à vontade. E sobre esse trabalho mais recente ele comentou ao jornal The New York Times. “Minhas fotografias são a celebração da vida, diversão e beleza. Os jovens estão num mundo que não existe. É fantasia. Mas a liberdade é real. Sem regras. É a vida que eu desejaria estar vivendo”, disse.

Ryan (que nunca veio, e pelo visto nem tem previsão de expor no Brasil) atualmente roda diversos países com a sua exposição “I Know Where The Summer Goes”. E não pára por aí. Ele também faz trabalhos para revistas de moda, sendo um dos fotógrafos mais badalados do momento. Pra quem quiser sacar mais da obra desse artista, basta visitar o seu site pessoal: www.ryanmcginley.com

3 Comments

  1. Posted junho 25, 2009 at 12:47 pm | Permalink

    Ah, a capa do último disco do Sigur Rós é uma fotografia dele. E fiquei sabendo que a Radda Radda tava querendo chamar o bicho pra fazer o projeto gráfico do primeiro disco da banda. =P

    Muito legal o trabalho do Ryan. Bem colorido, cheio de expressividade e com nus bonitos, sem vulgaridade.

  2. betoleitefilho
    Posted junho 25, 2009 at 4:34 pm | Permalink

    Lindo cara. Lindo mesmo!

  3. Posted junho 28, 2009 at 11:24 pm | Permalink

    Tinha visto o site. Afudê o trabalho do Ryan, e muito bem resenhado pelo Ramon.


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