Uma ode à pobreza

garapa_2009_notaPor Fábio Farias

Antes de estourar com o popular “Tropa de Elite”, José Padilha já era um diretor conhecido no meio cinematográfico pelo seu trabalho anterior: o documentário “Ônibus 174” – que conta os detalhes da história do principal personagem responsável pelo seqüestro de um ônibus, no Rio de Janeiro, em 2000.

Em uma linguagem forte e crua, “Ônibus 174” impressiona e causa reviravoltas no estômago ao denunciar o contexto que está por trás da formação de um criminoso. Padilha voltou este ano para o documentarismo com “Garapa” seu novo trabalho em cartaz nos cinemas de Natal.

“Garapa” conta a saga de três famílias cearenses em busca do que comer. Inspirado na grande quantidade de miseráveis no Brasil – cerca de 11 milhões – e com um toque a la Vidas Secas, a narrativa do diretor foi recebida no festival de Berlim com um sentimento de choque e um silêncio sepulcral. Aplaudir era uma heresia frente a verdade e a tristeza captada pelas câmeras.

A escolha do nome seguiu a tradição da pobreza: garapa é uma mistura de água e açúcar que as famílias pobres do Nordeste dão aos seus filhos na falta de leite e de algo melhor para comer. O documentário começou a ser filmado em 2005 e teve de ser interrompido para a gravação de “Tropa de Elite”. 12_mhg_garapa01

Todo em preto e branco, filmado com lentes fixas e câmera na mão, Padilha realizou o filme sem, sequer, ter conversado com as famílias antes. O autor procurou no Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) os dados e os contatos necessários para a realização do filme. Ao estilo Glauber Rocha filmou o que viu. E o que ele viu não é nada agradável.

Nos 110 minutos de duração, Padilha tenta fazer com que o espectador se aproxime dos números incessantemente divulgados sobre a pobreza. As dificuldades, a falta de perspectiva e a pobreza extrema aproximam o espectador de um Brasil miserável que pouca gente conhece. A crueza do que foi mostrado e os aspectos abordados como o “Bolsa Família” e o “Fome Zero” geraram uma série de polêmicas e discussões na imprensa na ocasião do seu lançamento nacional – 28 de maio. O questionamento seria o viés político que o documentário poderia ter.

Independente disso, o filme recebeu elogios de toda a imprensa especializada nacional e internacional e, assim como seus trabalhos anteriores, choca o espectador com uma realidade marginal e ignorada pelas classes mais ricas do Brasil. Nesse preâmbulo, a autoralidade de José Padilha ganha, cada vez mais, um aspecto de crueza ao mostrar aquilo que as agências de turismo e até os jornais deixam de fazer: a corrupção e, agora, a pobreza. Uma forma de arte e comunicação que denuncia e interage com o social.

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