Entre Carmens e Albertos, o que somos

copacabana

Por Rayanne Azevedo

Carmen faz sexo, mas não está lá. Sua cabeça vaga até a pia da cozinha, que não a deixa esquecer nem por um instante de que precisa comprar detergente.

Em outra situação, Carmen se cala, não diz nada, não fecha os olhos nem lhes dá repouso. Desenhando coisas a noite inteira no corpo do homem que dorme ao seu lado, ela chora. Páginas mais tarde, Carmen será objeto de uma das declarações de amor mais arrebatadoras que eu já tive a sorte de ler.

Uma sucessão de momentos recortados e costurados com os medos e desejos que nos movem. É isso que caracteriza o livro de João Paulo Cuenca, Corpo Presente. São contos que não guardam nenhuma ligação entre si além dos mesmos nomes dos personagens e suas vidas marcadas pela busca obsessiva da felicidade. Episódios transcorridos numa Copacabana suja, muito distante do bairro glamouroso retratado nas novelas.

Por meio de histórias isoladas constrói-se um mosaico do que somos nós, seres movidos pela necessidade de encontrar alguma coisa que perdemos em um tempo que não soubemos identificar. Os personagens dos contos são Carmens e Albertos que sentem o peso da solidão, procuram o contato um do outro avidamente e expõem suas entranhas da maneira mais crua, linha após linha. Eles são pais e filhos, amantes, prostitutas, drogados, travestis.

A escrita de Cuenca é de uma sensibilidade pura e direta. A linguagem é visceral. Esmiúça situações de uma forma que poucos conseguem colocar em palavras e que poderiam acontecer na vida qualquer um. E de fato acontecem. Em um mundo cínico, os personagens procuram conforto à sua maneira mais ingênua porque têm urgência em sentir (qualquer coisa – ou não).

O que todas as personagens de Corpo Presente têm em comum são os esforços descomunais e exaustivos empreendidos para assegurarem a si mesmos da veracidade de suas existências. Eles querem, como todos nós, se sentir vivos. Caminham trôpegos, travando mudos monólogos existencialistas para aplacar suas angústias.

Talvez a melhor explicação para o título do livro esteja no fato de que, ao longo de todas as páginas, as almas dos personagens estiveram a vagar em algum lugar que o corpo não soube acompanhar. Um refúgio, quem sabe, onde a realidade não é de todo dolorosa e a anestesia da carne é o melhor alívio.

2 Comments

  1. Posted julho 3, 2009 at 1:53 am | Permalink

    ………… Precisa dizer algo mais: tem vazio. E nada, mais.

  2. Posted julho 3, 2009 at 4:53 am | Permalink

    O Cuenca realmente manja de uma linguagem sensível e de um olhar diferenciado. Nos seus recortes, aos poucos, ele monta uma Copacabana do jeito que tu disse: suja. São Albertos e Carmens que em alguns momentos eu acredito que se repetem. Mas são interpretações minhas.

    Ele bota pra foder.

    Mas prefiro o seu romance O Dia Mastroianni. Me tocou mais. Aquela parada se curtir a rua eu acho muito fascinante.


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