Da literatura jerimum: entrevista com Patrício Júnior

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Por Fábio Farias

É inegável a influência positiva que a internet causou em todos os setores da cultura. Anarquista por natureza, a grande rede beneficiou iniciativas independentes e conseguiu fazer com que boas idéias rodassem o nosso país continental e conseguisse se manter ao atrair para si um novo público. Uma dessas iniciativas é o selo editorial natalense Jovens Escribas lançado em 2004 por autores potiguares ansiosos por algo de novo na literatura local.

Com romances, poesias e livros de crônicas, a pequena editora cresceu rapidamente em prestígio e chegou, no ano passado,  a publicar em sua tímida coleção a obra do maior escritor potiguar vivo. Nei Leandro de Castro re-lançou seu Dia das Moscas pelo selo e provou a força que os Jovens Escribas tem, mesmo com sua pouca idade.

A idéia serve para movimentar o, ainda tímido, mercado editorial potiguar – marcado por escritores mais velhos que vivem sob as sombras de um passado literário que a internet sepultou. Os Jovens Escribas, tanto na atualidade, quanto no selo em si, demonstra uma espécie de frescor na literatura norte riograndense e mostra que há espaço para novos escritores.

A editora lançou este ano a coletânea de crônicas do publicitário Carlos Fialho, Mano Celo, depois de uma publicidade feita por meio de listas de discussão, emails e Orkut e com uma proposta de marketing inteligente: nos banners de divulgação, Fialho caprichosamente colocou a opinião de leitores que não gostam do que ele escreve. A negação da sua literatura acabou tendo um efeito devastador: Fialho hoje é o autor potiguar que mais vendeu em uma noite de autógrafos na Livraria Siciliano da cidade. Foram mais de 300 Manos Celos vendidos em uma única noite.

O segundo lançamento do selo neste ano acontece em meio a um boom editorial potiguar. Patrício Júnior lança o seu “A Cega Natureza do Amor” depois de Cefas de Carvalho, Nei Leandro de Castro, Cassiano Arruda, Rubens Lemos Filho e outra penca de escritores que lançaram livros entre maio e junho deste ano. O diferencial de Patrício está no frescor das suas idéias: com 30 anos, ele é o mais novo de todos e na sua publicidade: vídeos no youtube, spots de rádio, emails com pôsteres muito bem trabalhados e o twitter. Tudo isso para gerar expectativa sobre o seu segundo livro que será lançado no próximo dia 16 de julho na Siciliano do shopping Midway Mall.

Entrevista

Começar pelo óbvio. “A Cega Natureza do Amor” é o seu segundo livro, sobre o que ele fala?

É uma compilação de 13 contos que já vinha escrevendo desde o lançamento de “Lítio”, em 2005. Tentava me livrar do universo ficcional do meu romance, que era pesado e marcado por personagens muito fortes. Assim, todas as tentativas de escrever algo novo caíam dentro daquele mesmo universo. Soavam repetitivas. Foi quando decidi partir para temas diametralmente opostos aos de “Lítio”. Acabei esbarrando no amor. Inicialmente, estava escrevendo contos apenas por escrever, não pensava em fazer um livro desse material. Mas com o tempo, percebi uma unidade entre eles e a necessidade de publicar acabou surgindo.

Quais as suas influências para escrevê-lo?

Quando falo de influências literárias, falo sempre em Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Albert Camus. É praticamente a santíssima trindade da minha literatura. São autores que admiro bastante e consumo com freqüência. Mas as influências vêm de diversos lugares. Este livro tem muito da minha vida, do que senti, do que sofri, do que sorri. Tem muita coisa inspirada na vida real – tanto na minha como na dos outros. O período que passei na Espanha também foi crucial para burilar esses contos: a distância do país me deu uma visão mais ampla dos meus sentimentos, daquelas histórias que estava escrevendo.

Qual foi o maior desafio, foi mais difícil do que escrever Lítio?

De jeito nenhum! Costumo dizer que nunca mais escreverei um livro como “Lítio”. É um romance-desabafo, que dá a sensação de ter sido escrito de um fôlego só, mas que me tomou dois anos de trabalho ininterrupto. Trabalho intelectual e braçal. Com “A Cega Natureza do Amor” foi bem diferente. Fui escrevendo os contos sem compromisso, sem nem saber se daquilo sairia um livro. Alguns ficaram guardados por meses para serem retomados depois. Outros foram burilados com paciência, a conta-gotas, sem pressa. Queria ter lançado este livro ano passado, mas não sentia que ele estava pronto. Guardei, então. No fim, tenho um livro que me transmite uma boa sensação, uma calma que geralmente não sinto com o que escrevo. O maior desafio dele foi exatamente falar dos meus sentimentos sem me expor desnecessariamente. Há muito de mim nesse livro. Partes que não pensei que um dia compartilharia. É um desafio em tanto se entregar assim.

Os escritores geralmente tem um livro que preferem. Dos seus dois filhos, qual é o seu preferido?

Ainda sou inexperiente demais para fazer esse tipo de análise, sabe? No momento, prefiro “A Cega Natureza do Amor”, porque é novo, tem o frescor de idéias recentes, tem fragmentos mais verdes de mim. Talvez em alguns anos, e alguns livros depois, eu possa escolher um favorito. Por hora, vou ficar sempre com o mais recente.

Lítio é um livro que choca, pela linguagem crua e pela forma que é escrito. E a Cega Natureza do Amor, se encaixa nesse mesmo parâmetro, ou está com uma linguagem mais “leve”?

Não sei se é mais leve, mas é mais elegante. “Lítio” tem aquela coisa de verborragia, de dizer tudo que vem à mente. “A Cega Natureza do Amor” é mais contido, mais econômico. Mas não pense que economizei nas provocações. Penso que esta é uma característica que manterei até quando falar de infância. Dentre os contos que selecionei, busquei os que fogem da obviedade do amor. Assim, criei personagens como um padre grávido, um travesti apaixonado, uma dona de casa que tortura o marido. Enfim, estou falando de amor. Mas não deixei de ser Patrício Jr.

Só neste mês, Nei Leandro, Cefas Carvalho lançaram livros. Se contabilizarmos os últimos meses, temos ainda Cassiano Arruda, Rubens Lemos Filho e Carlos Magno Araújo com lançamentos, além do próprio Fialho. Esse “boom” editorial em Natal é bom? Os livros tem qualidade?

Analisando de forma geral, acho excelente que se publique mais e mais e mais. O Jovens Escribas foi criado com esse intuito, de tirar da gaveta o que era considerado impublicável. Obviamente, existem coisas boas e coisas ruins. Aí parto para a análise individual. Alguns livros valem a pena ser publicados, outros merecem ser esquecidos. Mas esse julgamento só é possível numa cena efervescente, onde idéias opostas vêm à tona e se chocam. Por isso prefiro que haja dez mil lançamentos num mês do que apenas o meu. Esse enfrentamento faz com que as idéias amadureçam. E o tempo separará o joio do trigo.

Existe literatura contemporânea no Rio Grande do Norte?

Sim, existe. Mas num contexto geográfico apenas. Explico: hoje em dia, o RN está mais conectado com o resto do mundo. Temos autores jovens e autores maduros num excelente intercâmbio de idéias. E não esqueçamos dos blogs: há um universo à parte por ali. De autores que não publicam em livro, mas que fazem suas idéias circularem de maneira muito eficiente na web. Assim, literatura contemporânea potiguar é uma expressão que tem um sentido puramente denotativo: literatura feita aqui no Estado. Mas que tem características tão diversas e está intertextualizada com tantas vozes do mundo que assume o papel de literatura contemporânea. Prefiro deixar os gentilícios para as pessoas.

E os novos autores, quais são as perspectivas? Há espaço aqui em Natal?

Antes de criar o Jovens Escribas achava inviável conseguir fazer carreira de escritor aqui em Natal. Hoje em dia, recebo quase diariamente e-mails de jovens que querem publicar. Meu blog tem leitores fiéis, atentos ao que escrevo e sempre prontos a protestar se os deixo um ou dois dias na mão. Ou seja, há autores e há leitores. As portas estão abertas. O Jovens Escribas pegou uma brecha, abriu um nicho de mercado e agora estamos investindo na gestão cultural responsável para sermos auto-suficientes. Se há espaço? Há cinco anos todos me diziam que não. Hoje, jamais cometeria o erro de dizer esse tipo de sandice.

Os Jovens Escribas deram uma estagnada de um tempo para cá. Voltaram com força depois do lançamento de Fialho. Quais são os planos do futuro para a editora?

Antes, uma correção: não demos uma estagnada. Continuamos trabalhando sem parar. Depois do boom inicial, no qual lançamos 4 livros em um único semestre, diminuímos o ritmo. Não dava pra manter esse ritmo sem se transformar numa fábrica de panfletos. Mas nunca paramos de trabalhar. Participamos de eventos literários, lançamos 10 livros nos últimos cinco anos – incluindo aí “Dias das Moscas” de Nei Leandro de Castro, que é um orgulho ter em nosso acervo. “A Cega Natureza do Amor” é o 11º livro do Jovens Escribas. Com o lançamento de Fialho, tivemos um êxito sem igual: foi o record de vendas em um lançamento na Siciliano de Natal. Nossa marca conquistou prestígio. Depois do meu lançamento, vamos reestruturar algumas coisas no grupo. Já não dependemos de verba pública para lançar livros e isso é um grande passo. Para o futuro, queremos nos solidificar como um selo literário de qualidade. Particularmente, tenho duas ambições: publicar autoras e publicar quadrinhos. Com essa reestruturação, vamos ver o que é possível.

Lançamentos a nível nacional de escritores locais. Até onde isso pode deixar de ser sonho e passar a ser real?
Para ficar nos contemporâneos, Nei Leandro de Castro e Pablo Capistrano já fizeram isso. Ou seja, é factível. Claro que o mercado nacional não vai se abrir para todos os potiguares de uma vez só. Antes, eu perseguia isto como um sonho inalcançável. Agora, vejo que estas coisas envolvem muito mais aspectos práticos do que lances do destino. Não gosto do artista que reclama do mundo e se tranca no seu. Por isso, me divido entre dois mundos: sou escritor quando tenho que compor minha obra; sou gestor quando tenho que geri-la. Falo isso porque acho que o reconhecimento da cultura local parte de um pressuposto: a organização da cultura local como um nicho mercado viável. Para isso, nossos artistas têm que se profissionalizar em seu mercado. As coisas caminham bem: temos o Clowns de Shakespeare e o Centro Cultural Dosol, por exemplo, que são dois negócios culturais muito profissionais que alcançaram reconhecimento fora do Estado. Escritores locais lançando livros por grandes editoras não é um sonho inalcançável. Mas é que o mercado é assim: os mais profissionais se destacam.

5 Comments

  1. Rayanne
    Posted julho 10, 2009 at 1:48 pm | Permalink

    Ele vai lançar o livro ainda ou ele já foi lançado?

    Muito boa a entrevista! Mas o prestígio não é todo do Jovens Escribas, o Sebo Vermelho também rala muito para publicar e reeditar obras literárias de potiguares.

    E, sem querer ser chata, não entendi esse bafafá todinho que fizeram em cima do Mano Celo.

  2. Posted julho 10, 2009 at 8:28 pm | Permalink

    Rayane, meu livro será lançado dia 16 de julho, na Siciliano do Midway Mall, às 19h. Espero vc em mais esse bafafá imcompreensível.

  3. Posted julho 11, 2009 at 7:27 am | Permalink

    Patrício, muito boa tua entrevista, cara.
    Acentua minha admiração pelo teu trabalho.
    dia 16 estarei lá no Midway.

  4. Posted julho 12, 2009 at 12:31 pm | Permalink

    cheguei aqui pelo blog d fiasco. gostei do site, e da entrevista. pena que nao vou ao lançamento =( patricioooo guarde meu livro!

  5. Posted julho 13, 2009 at 3:17 pm | Permalink

    WOW! I’m so t-shirting this: “Enfim, estou falando de amor. Mas não deixei de ser Patrício Jr”.


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