Maria, aflita

3631782324_b1f5906c76_bPor Fábio Farias

– Enjoei.

Distraída, Maria olha para o marido. Ele tinha um olhar sério.

– É, enjoei!

Maria, então, coloca o pano de prato sobre a mesa e diz:

– Tá sentindo alguma coisa meu bem? Bem que o doutor Juvenal disse para você não comer frituras…

Determinada, ela foi direto na estante dos remédios e passou a cavucar algum paracetamol da vida. Fabrício mantinha seu olhar sério. Não havia nele o mínimo sinal de alguma doença. Só havia aquele olhar frio, determinado.

– Não Maria. Pare. Não estou enjoado. Eu enjoei.

Maria, aflita, e com uma cartela de paracetamol nas mãos pergunta:

– Enjoou de quê, homem?

– De tudo.

O paracetamol cai no chão. Maria, ainda sem entender, aproxima-se com o seu cheiro de rosas molhadas, senta-se ao lado de Fabrício na poltrona vinho e com as suas mãos de dona-de-casa tremendo toca as mãos grossas e geladas do marido. Os seus belos olhos azuis lacrimejantes imploravam explicações. Fabrício então explica.

– Enjoei da nossa vida, dessa nossa forma de viver hipócrita. Chego em casa todas as noites, você me prepara essa mesma janta e vamos dormir depois da novela. Ao amanhecer, sequer tocamos os nossos corpos. Acordamos e mal nos olhamos! Não há mais paixão, não há mais alegria em dormir, muito menos em acordar juntos. Em silêncio nos arrumamos e eu vou para o trabalho e você vai deixar os meninos no colégio. Enjoei, Maria, enjoei dessa mentira que vivemos diariamente e que mantemos só por causa dos nossos filhos. Não agüento mais fingir que somos felizes, que não temos problemas, que nos amamos. Sei que você não me ama e eu não te amo mais. Não te satisfaço na cama e sei que não me deseja tanto como fala nos meus dias de ausência. Sei que Danilo vem quase todas as tardes aqui para suprir a minha falta. No nosso pouco sexo não temos emoção, sequer satisfação recíproca. Somos duas pedras de gelo em movimento constante. Não temos paixão Maria, não faz sentido viver sem paixão. As noites que chego mais tarde, você bem sabe que estou com outras, porque assim como eu não te satisfaço, você não me satisfaz também. Procuro nos outros corpos aquilo que encontrei em você quando éramos jovens. Aqueles suspiros e faltas de ar constantes, aquela paixão que nos fazia desejar a presença do outro em cada instante, em cada segundo de nossas vidas. Isso passou Maria, fomos consumidos pelo tempo. Esfriamos com os anos, somos como dois pedaços de carne mortos e que se deixam levar pelo destino.  Não Maria, esse não era o amor do qual eu lia, do qual nos prometíamos quando éramos mais jovens que vivíamos e mostrávamos, orgulhosos, para os outros. Nos transformamos naquilo que mais abominávamos nos outros casais e nos conformamos com essa situação por causa do peso da idade e da falta de coragem em mudar as coisas. Viramos aquele casal de aparência que tanto odiávamos, você não percebe? Vivemos em uma carapuça de falsa felicidade e me cansei disso Maria. Me cansei Maria. A verdade é que não te amo como antes. A verdade é que vivo a nostalgia de um passado que jamais voltará e me sinto aprisionado a algo que não mais acredito. A nossa história foi linda e, se foi, é porque um dia existiu. Ela não existe mais. Nem para mim, nem para você. Não Maria, não quero mais viver isso, não quero ser mais fazer parte de um casal mentiroso em meio a multidão, não quero sustentar essa falsidade superficial. Eu tenho o direito de procurar novas paixões, assim como você. Vou embora para sempre Maria e, por favor, não venha atrás de mim.

Silêncio. Ao dizer isso, Fabrício se levantou e foi para o quarto, arrumar as suas coisas. Maria estava paralisada, absorvida em palavras que mal conseguia digerir. Os olhos, lentamente, enchiam-se de água. O coração batia mais forte. As pernas eram trêmulas, fraquejavam. Não havia mais chão. Tomou então um papel em cima da mesa, escreveu. Sequer notou as lágrimas borrando a sua letra doce escrita no azul da caneta. Com os olhos lacrimejantes, mas sem perder a postura austera, entregou o papel ao marido.

“Se quiser, esqueço de tudo, dou a volta ao mundo com você, mudo, te mostro a minha verdade e você me mostra a sua. Mas, por favor,  você deveria saber que te amo mais que tudo e que o amor está além da paixão. Te amo e não quero que vá. Saiba que sem você eu não vivo. E se tudo é uma mentira para você, não é para mim.Te amo Fabrício e não adianta pedir, não vou desistir de você.”

Fabrício dobrou o bilhete, guardou no bolso do paletó antigo. Seus olhos mostram uma frieza e uma determinação colérica.

– Depois resolvemos as pendências dos nossos filhos.

Acendeu um cigarro e saiu para nunca mais voltar.

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