O Hômi

nei-leandro-3Por Fábio Farias e Rayanne Azevedo

Referência. Nei Leandro de Castro ou Neil de Castro, como preferir, o hômi não é muito ligado a excessivas formalidades. Escritor, com seus 1,70m, cabelos brancos, uma quedinha pelo whisky-com-gelo-porfavor,  óculos e um olhar sensível, poético, erótico.

A literatura de Nei Leandro de Castro ultrapassa as barreiras da ilha potiguar e toca, quem quer que seja, pela sua qualidade técnica e pelas imagens de um Nordeste não-clichê, mas poético, fantástico, de sã saruês, rios de leite, mulheres brabas e anti-heróis destemidos e machos.

O “Hômi” quando moço escreveu crônicas para o Pasquim sob a alcunha de Neil de Castro. É responsável por uma série de poemas eróticos lidos e elogiados por gente do quilate de Carlos Drummond de Andrade e livros. Muitos livros. É considerado um “Ojuara” tanto na prosa quanto na poesia.

Aos que ainda não sabem, fica a dica: Nei é o autor da obra que originou o filme “O Homem que Desafiou o Diabo”.

A literatura de Nei é da terra, sem os florismos nem as chatices que o peso destetermo pode trazer. Recentemente lançou seu novo romance: A Fortaleza dos Vencidos e concedeu – por email – uma entrevista à Rayanne Azevedo, onde fala um pouco das suas preferências literárias, do Pasquim e de – é claro – literatura.

R – Como escreve um livro? O senhor escreve conforme a inspiração vem ou senta diante da tela do computador com determinada periodicidade, independente de estar com algo em mente?
NLC – Fico um bom tempo à procura de uma idéia, de um enredo a ser desenvolvido. Não tenho pressa, não deixo a ansiedade tomar conta de mim. Mas, depois das primeiras páginas escritas, o rumo é outro, o clima é outro. Fico totalmente entregue ao trabalho de criar personagens, desenvolver a história. É um sufoco! Agradável, dá prazer, mas é um sufoco.

R – O que o motiva a escrever?
NLC – Gosto de criar enredos, gosto de criar personagens, gosto de homenagear amigos fazendo deles personagens dos meus romances. E, claro, gosto de ser lido.

R – O uso de expressões tipicamente nordestinas no texto é uma forma intencional de resgatar e preservar o vocabulário regional? Onde vai buscar expressões tão inusitadas como a palavra “xiranha”, que aparece no livro “As Pelejas de Ojuara”?
NLC – Mesmo tendo vivido 37 anos no Rio de Janeiro, nunca perdi minha nordestinidade. Faço questão de usar termos nordestinos e muitos desses termos, que ouvi na minha infância e adolescência, já caíram em desuso. Nos meus romances, tento resgatá-los.

R – Escrever contos e crônicas é mais fácil do que escrever romances?
NLC – Escrever romance é muito difícil. Dá um trabalho imenso. A trama e os personagens tomam quase todo o nosso tempo. Alguns personagens, como já disse algumas vezes, se rebelam contra o criador e querem tomar um rumo diferente. Escrever contos também não é fácil. Escrever crônica é puro prazer.

R – Que conselhos daria àqueles que querem se aventurar no gênero (romance)?
NLC – Antes de tudo, leiam os bons autores, leiam com atenção os grandes romancistas. Com essa leitura, vai-se aprendendo como se conduz uma boa história, como não se deve complicar na linguagem.

R – O senhor lê algum escritor da nova geração? Se sim, quais deles agradam ao senhor?
NLC – Preciso sair à procura de escritores da nova geração. Por enquanto, continuo lendo e admirando talentos como Rubem Fonseca. Lígia Fagundes Telles e Dalton Trevisan

R – Dos quatro romances que já escreveu, nutre afeto por algum deles em especial? Qual deu mais trabalho?
NLC – Não posso dar preferência a um livro se não os outros vão ficar enciumados. São da mesma prole… Todos deram muito trabalho, mas o Ojuara deu um pouco mais.

R – O senhor já colaborou com o Pasquim. Em que época e de que maneira isso aconteceu?
NLC – Colaborei com O Pasquim em 1969, sob o pseudônimo de Neil de Castro. O Pasquim foi, a meu ver, a maior revolução do jornalismo brasileiro. Mudou linguagem, atitudes, formas de ver e comentar a vida. Sem falar na oposição que fez ao regime militar instalado em 1964. Ter escrito crônicas para O Pasquim, no meio de tantos talentos, é um orgulho para mim.

R – Agora, só a título de curiosidade (tenho certeza que não sou a única) – suas colaborações para o Pasquim podem ser encontradas em algum lugar?
NLC – Eu não tenho nos meus arquivos uma só crônica das que escrevi para O Pasquim. Tudo ficou com uma ex-mulher, que se apropriou de minha biblioteca e muitos outros pertences. Nas antologias que se está fazendo daquele semanário, como não estou no Rio e estou meio desligado da turma, não estão me incluindo. Logo, vai ser difícil encontrar o Neil de Castro…

4 Comments

  1. Posted julho 29, 2009 at 9:06 pm | Permalink

    Neil é o cara. Não só pela qualidade artística e pelas opiniões sempre acertadas, mas também pela generosidade com que trata escritores nas fraldas como eu. E, a propósito, “A fortaleza dos vencidos”, mais recente romance do autor, vale cada linha, cada palavra, cada letra. Obra-prima.

  2. Posted agosto 16, 2009 at 5:11 pm | Permalink

    Como dizia uma professora da faculdade: escrever só é tarefa fácil pra quem não escreve.

  3. Pedrinho
    Posted setembro 2, 2009 at 1:22 am | Permalink

    “uma quedinha pelo whisky-com-gelo-porfavor”

    Mandaram bem. Parabéns, Fábio e Rayo.

  4. Henrique Luiz Costa
    Posted novembro 24, 2009 at 11:10 pm | Permalink

    Olá pessoas algum de vocês que estão sempre acompanhando o Nei eu gostaria de saber como e que eu consigo o email dele ou falar com ele pois eu sou casado com a neta dele e ela quer muito falar com ele mais ei nem faço ideia de como entro em contato com ele, e se alguém souber eu ficarei muito grato.
    eu sou carioca.

    desde já sou grato pela atenção de todos.

    Henrique Luiz.


One Trackback

  1. By A Fortaleza de Nei on outubro 18, 2009 at 9:29 pm

    […] dos Vencidos é um romance de gente grande, do ômi que sabe muito bem encaixar os elementos de uma boa trama, alternar planos temporais e criar […]

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